Unidos pela fome

Embalada pelo 13º Festival de Cinema de Ouro Preto e pela ansiedade da espera de Sol Alegria, vão dois textos recuperados da gaveta: um textinho de tamanho inverso ao meu amor pelo filme Batguano (2014), de Tavinho Teixeira e um textão derramado sobre o curta-metragem O Coração da Fome (2018), de Bernardo Zanotta, que logo logo chega na Terra Brasilis. Juntando Tavinho e Bernardo porque eu acho que combinam.

Nine out of ten movie stars makes me cry, I’m alive (sobre Batguano de Tavinho Teixeira)

Batguano (2014)

A sinopse: “Éramos então um só ser duplo vivo transformado com duas cabeças pensando e logo nos tornamos símbolo da perfeição do novo ser em sua máxima evolução e potência e desejo e vontade e expansão e começamos a viajar pelo universo por todas as galáxias divulgando nossa dupla de repentistas punk-rock completos porque a Terra havia ficado pequena demais para nós dois.”

A crítica: Em terra arrasada, o que você levaria para uma ilha deserta? Que com que memórias deste mundo Batman e Robbin constroem um novo? Divas da televisão, minotauros pauzudos, suas cenas de cinema favoritas, seus números de dublagem célebres, o amor? Rodando pela tela vazia em um conversível, autografam fotografias para em seguida rasgá-las, coçam seu braço ausente no espelho. Brindam a existência com bananas e whisky. Preenchem a ausência com o absurdo para lembrar que ainda estão vivos. Mas um presépio natalino anuncia um novo tempo. Como Adão e Eva, eles têm a missão de repovoar o mundo. Nine out of ten movie stars makes me cry, I’m alive.

O cinema brasileiro ou é experimental ou não é coisa alguma (sobre Coração da Fome, de Bernardo Zanotta)

O cinema brasileiro ou é experimental ou não é coisa alguma, disse o poeta Julio Bressane embalado pelas águas turvas de Limite (1930) de Mario Peixoto. O cinema brasileiro ou começa no mar ou não começa de forma alguma, disse a diletante que escreve diante do Coração da Fome (2018), de Bernardo Zanotta. Sobretudo diante do filme de um jovem brasileiro que tece suas referências a cada travessia do Atlântico, que engole e regurgita suas imagens, sons e palavras em caleidoscópio que refrata o hino da França, uma carta de Rilke, a luz de Caravaggio, a atmosfera de Werner Schroeter.

Coração da Fome (2018)

Diante do dilema Tupi or not Tupi, e da resposta óbvia e defensiva da atualidade globalizada: Tupi, Zanotta opta corajosamente pela dúvida canibal. Só me interessa o que não é meu, dizia Oswald de Andrade dois anos antes de Peixoto fazer o cinema puro, ele mesmo, em Mangaratiba! Pura ou contaminada, a câmera que inicia Coração da Fome reporta ao episódio que Bressane descreve como inaugural do cinema no Brasil: as imagens da Baía de Guanabara, filmada pelos irmãos Secretto (!), do convés do navio que os trazia da Europa. Na memória inventada do p(r)o(f)eta, devido a destruição das películas, as primeiras imagens cinematográficas concebidas em solo brasileiro foram oscilantes, marejadas, bossa-novistas. Assim Zanotta nos apresenta seu cinema, velho e novo, como o Atlântico que nos trouxe o cinematógrafo.

Do espírito alemão, a fome do coração de Zanotta escolhe os corpos de Schroeter. Corpos em quatro dimensões, palpáveis sob a luz quente do teatro. O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. Escolhe os corpos dos palhaços trágicos do cineasta alemão, que abandonam a falsa máscara para vestirem a verdadeira máscara teatral, a máscara desveladora. Sensível à atuação de Hinke-Anne Eleveld, que generosamente presenteia e presentifica o assombro de Rilke em requiém à amiga morta, o cineasta fricciona sua juventude às marcas dos rostos beijados pela lente.

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Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Nem só de estrangeirismos vive nosso cinema. Canibal é o que come a própria carne, e a carne latino-americana também aparece devorada pela evocação do que se assemelha aos rituais macabros das ditaduras militares encomendadas dos anos de chumbo. Desta vez a água afoga o corpo ao invés de embalá-lo. Ainda provando da carne hermana, Zanotta vomita um realismo mágico, antropomórfico, o homem é a galinha do homem. Dai pra diante o erotismo escorre dos quadros de Coração da Fome. O ovo de Kant, o ovo de Bataille, o prazer solitário da experiência estética. A imagem que suja as mãos e cheira a pasto.

O corpo doce, masculino, é fincado no peito por jovens famintos e de perversa curiosidade infantil (e não é a curiosidade pelo corpo do outro uma perversidade infantil por excelência?). O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. A fome do coração perscruta a escala termométrica dos corpos marcados, expostos e ao mesmo tempo escondidos, como pinturas barrocas culpadas ou envergonhadas, ou ainda alienadas do nosso olhar voyer.

Assim nasce o cinema brasileiro: experimental. Foi porque nunca tivemos gramáticas (o cinema puro, ele mesmo, em Mangaratiba!), nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental é que podemos Caravaggiar em luz fria, estroboscópica. O pintor barroco marginal, canibal do cristianismo, que moldou a virgem da puta e o santo do mendigo, é referenciado, reverenciado, pelo jovem cineasta em uma sequência de imagens estáticas, revelando a festa dos corpos. Também aqui se faz o carnaval. Não fomos colonizados.

Da água viestes, à água voltarás. Ou, o barquinho vai, a tardinha cai, dia de luz, festa de sol. Tudo ficará bem se formos ao redor das correntes, tudo bem, se formos ao redor das correntes.

 

Trechos de textos gentilmente roubados de O Experimental no Cinema Nacional (1993), de Julio Bressane e do Manifesto Antropófago (1928), de Oswald de Andrade.

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