Corpo devasso e corpo sagrado

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“A tua vagabundagem depende da merda de milhares de pessoas.”

A fala de Paulo César Pereio em O Bom Marido (1978), de Antônio Calmon, dá o tom do teor político das pornochanchadas brasileiras revistas pelo olhar determinado de Fernanda Pessoa em seu primeiro longa-metragem Histórias que nosso cinema (não) contava. Contar não contando. Contar escondido (às vezes nem tanto), contar sem querer contar querendo. Na margem do dito e do não dito, a diretora expõe algumas discussões políticas e sociais que emolduravam as aventuras eróticas do gênero popular, que teve seu auge nos anos que compreenderam a ditadura militar no Brasil.

A exploração do capital internacional, vendido como “milagre econômico” pelo governo militar, o autoconsciência da mulher e de seus papéis sociais, apesar (ou por causa) da exploração sexual sobre seu corpo, as relações de classes, de raças, e até a denúncia da tortura a presos políticos perpetradas pelo estado de exceção, foram temas que passaram despercebidos pela censura da época, mas não pelo olhar de Fernanda Pessoa. Essa complacência do regime provavelmente se explica pela liberdade concedida ao gênero por sua temática sexual e popular. Mais uma vez o sexo faz política por meio de sua verve libertária, onde os dentes afiados da moral e dos bons costumes não chegariam. O sexo como lugar de livre expressão da geração dos anos 70. Uma geração que não esperou a representação da indústria hegemônica para se narrar, que aproveitou o espaço da margem que lhe cabia para fazer sua crítica social interna, que falou sem intermediários para seu público alvo, as classes populares brasileiras.

Assim como Cinema Novo (2016), de Erik Rocha, que se propôs a fazer um panorama do que foi o movimento em sua relação estética e político-ideológica da época, Histórias que nosso cinema (não) contava ilumina o gênero destacando em suas narrativas o emaranhado social que sua estética popular permitia abordar. É curioso que esses dois filmes, Cinema Novo e Histórias…, partam de um mesmo dispositivo, a colagem de trechos fílmicos de outrem para engendrar uma narrativa própria, cheguem a tratamentos tão diferentes em relação aos seus objetos. Em seu texto para Revista Cinética sobre o filme, “A vingança é um prato que se come frio”, a crítica Andrea Ormond escreve que a façanha iconoclasta da diretora em remoldar o passado e os vultos da cultura da época a uma “linguagem exótica e própria” é possível por sua falta de relação de memória afetiva com a sua matéria-prima. Já Rocha em Cinema Novo estabelece com as imagens que ressignifica certa veneração impregnada de afetos filiais, digna da certeza do valor do momento que narra. Rocha, um homem jovem, filho de Glauber, figura central do movimento, conta a história de homens jovens e idealistas em suas reflexões sobre a arte, a política, o cinema e o mundo. Cenário bem diverso do investigado por Pessoa. Esse afastamento iconoclasta da diretora citado por Ormond, confere ao filme uma autonomia para jogar com seus os mitos e os ritos da pornochanchada, gerando uma incerteza libertadora no espectador quanto ao seu julgamento sobre os filmes com os quais trabalha e uma visão mais politizada do material explorado. Incerteza que Ormond, em seu ótimo texto para Cinética, define como “trafegar no fio da navalha entre a homenagem e o deboche”, e que falta um pouco no filme de Rocha, que não pode ou não quer correr o risco da dúvida sobre os feitos de seu pai e de seus companheiros de geração.

Esse tratamento devasso com que Fernanda Pessoa trata as imagens e as narrativas, se apropriando livremente de cenas, falas e sequencias, de corpos sagrados para parte de uma geração, nos dá de presente uma perspectiva da pornochanchada como um cinema pensante, libertário e transgressor ao seu modo, sobretudo consciente do seu alcance de influência. Perspectiva que adquire uma importância ainda maior se pensarmos no estado de preservação dessa produção e que pode, se contarmos com a sensibilidade dos nossos agentes culturais, estimular a restauração e o acesso público desse patrimônio histórico marginalizado do cinema nacional.

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